All male…

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Congrats, you have all male panel

Olhando o gabinete do interino (letras minúsculas), lembrei de um capítulo que estudei com meus alunos de História Contemporânea II. Não é a primeira vez que uso, mas foi a última. O capítulo trata sobre a cultura nos anos do entre-guerras. Não se trata de um texto analítico, mas informativo. Coloca os principais acontecimentos e faz umas extensas listas de criadores culturais. Listas por si só podem ser complicadas, no entanto, listas em que apenas figuram homens quando se trata de criação (cultural, tecnológica, política) tendem a ser muito mais problemática.

Pode-se argumentar que quando tal capítulo foi escrito, não havia patrulhas feministas rondando armadas a selvas da internet. Bem, o livro foi publicado nesse século, eu não vejo escusas para um historiador não se dar conta de que na sua lista só há homens.

Mas o fato é que isso está naturalizado. Tão naturalizado que eu mesma só me dei conta esse ano e terei de achar outro texto para colocar no lugar quando repetir a matéria, pelo simples fato de que não, não é mais aceitável que naturalizemos uma cultura primordialmente masculina. Até porque, pasme(!), as mulheres existem, existiram, criam e criaram cultura, não foram somente estrelas de cinema. Não tivemos apenas Virginia Woolf, a única mulher que, ao que parece, alcançou o status de ter de ser obrigatoriamente citada. Mas, com todo o seu brilhantismo, ela foi uma, não a única.

Então, assim como me incomodou o texto, o ministério me incomodou sobremaneira. Uma pena não poder trocá-lo como farei com o texto. Mas, pensando contra mim mesma, perguntei-me se me incomodaria um ministério só de mulheres. Respondi-me que não. Seria uma novidade, uma experiência. No entanto, imagino que isso incomodaria a maioria das pessoas que não viu qualquer problema num ministério de homens brancos e réus na justiça e eu queria perguntar por quê?

Para terminar, uma listinha das mulheres que produziram, especial na literatura e na política, no período entre-guerras. E não, elas não são esquecíveis.

Gertrude Stein https://pt.wikipedia.org/wiki/Gertrude_Stein

Emma Goldman http://jwa.org/womenofvalor/goldman

Rosa de Luxemburgo https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_Luxemburgo

Anaïs Nin https://pt.wikipedia.org/wiki/Ana%C3%AFs_Nin

Katherine Mansfield http://www.goodreads.com/author/show/45712.Katherine_Mansfield

Dorothy Parker https://www.poets.org/poetsorg/poet/dorothy-parker

Irene Nemirovsky http://jwa.org/encyclopedia/article/nemirovsky-irene

Alexandra Kollontai https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandra_Kollontai

Edith Wharton http://www.online-literature.com/wharton/

Colette https://en.wikipedia.org/wiki/Colette

Pagu https://pt.wikipedia.org/wiki/Pagu

A lista não se esgota e, olhem, nem falei das artistas plásticas como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral. Ou das áreas da ciência, etc.

 

Eu tinha 13 para 14 anos, era 1987…

Que país é esse

Escritos de adolescência, em geral, causam vergonha. Os meus não são diferentes. Ontem, porém, dia 11 de maio de 2016, dia tão difícil para o Brasil, encontrei esse poema, da época em que me atrevia a poesia engajada (atualmente acredito que a poesia pede talento muito superior a qualquer um que já tive). Essa época, entretanto, era intensamente inspirada pela leitura apaixonada de Que país é este?, de Afonso Romano de Sant’Anna, o qual eu declamava no clube de declamação do Colégio Centenário, sob a orientação da fantástica Professora Norminha.

A Norminha e outros, como o Professor José, foram grandes incentivadores da minha escrita. Mas também tive professores incentivadores do meu engajamento, como a professora Soni, a Professora Ivete, a Professora Hugélia, o Prof. João Rodolfo, a Turca (prof de filosofia), a Deise de biologia (estas ultimas também incentivadoras do meu feminismo). Devo muito, muito a el@s. E a profissional que sou hoje também deve.

Hoje, numa época em que se quer falar de escola “sem partido” (a falsa neutralidade que oblitera o conhecimento e o ensino), eu rendo homenagem aos meus professores. Esses incríveis e maravilhosos professores que, em tempos de difícil abertura política da década de 1980, foram faróis e jamais negaram seu papel de educadores.

Trago para este texto para blog como um registro. Do que muda e do que não munda. O Brasil mudou e não mudou. Que correu largas distâncias e hoje volta sobre os seus passos. Eu mudei obviamente e, em muitos sentidos, nos mais profundos dos sentidos, eu também pouco mudei. Nem pretendo. Como se diz atualmente nas redes #soudessas.

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Cansada de coisas sérias: regras pessoais de admissão de amigos na RS

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Apenas porque hoje estou cansada das coisas sérias, seguem minhas regras pessoais para aceitar pedidos de amizade nas redes sociais.

  1. Vem cá, te conheço?
  2. Quais dos meus amigos te conhecem?
  3. Eu lembro quem são esses amigos?
  4. Seus pais te odiavam tanto assim para dobrar todas as consoantes do seu nome ou você é fake mesmo?
  5. Moço, num mundo de tantas imagens e fotos, você acredita MESMO que seu melhor ângulo é sem camisa?

Passando tais fases, vamos a porcentagem de besteiras versus bobagens postadas. Todos têm, só vou conferir.

 

 

A propósito do estupro em obras de ficção

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Estava debatendo com uma amiga escritora a questão do estupro em obras de ficção. Em especial, como o uso desse “recurso” tem sido cada vez mais recorrente em séries, mas também em filmes e livros. Parece que quanto mais se reclama da cultura do estupro, quanto mais se evidencia o lugar do estupro como um dado de opressão social das mulheres*, mais ele povoa nossa ficção como “exemplo da realidade”. Mas será que é realmente isso? Uma história só tem “toques de realidade” se tiver abuso sexual?

Não estou advogando o não uso de estupros em peças de ficção, estou apenas questionando o porquê de o estupro se tornar um recurso narrativo tão correntemente usado em histórias ficcionais. É como se, sem um estupro, a história não fosse forte o bastante, não alcançasse o gosto do público, o qual é “ávido” por histórias que mexam com suas emoções. É só o estupro que pode fazer isso? Como leitora e escritora, permitam-me questionar.

Falemos da Cultura do Estupro (tão negada e tão evidente). Uso aqui a definição que dei em uma entrevista para meus alunos no ano passado:

Pode-se dizer que cultura do estupro é toda crença, prática, ideia ou regra sobre o mundo e a convivência que, de forma clara ou tácita, autoriza a violência contra as mulheres. Não se trata apenas de coisas como “mulher gosta de apanhar”, mas igualmente “as mulheres preferem os canalhas”, “com essa roupa? Estava pedindo”, etc. Nesse sentido, as mídias são propagadoras, incentivadoras e educadoras, eu diria, dessa cultura. Vale salientar que, embora o termo cultura do estupro seja recente, não se trata de uma invenção do século XXI. A cultura do estupro é a nossa cultura, essa cultura descendente de épocas em que as mulheres eram proibidas por lei de estudarem, falarem na rua, saírem sozinhas, proibidas de trabalhar e de se sustentar, vistas apenas como reprodutoras. A percepção é nova, mas as ideias não. O estupro era e é uma forma de manter os oprimidos em seus lugares. Como as feministas cansam de repetir: não é sobre sexo, é sobre poder.

Assim, com o intuito de criticar o uso do estupro nas mídias, uma série de artigos têm sido publicados pela crítica feminista nos últimos anos, procurando qualificar e perceber os porquês e a necessidade de seu uso.

Contudo, e acabei de escrever isto, voltei, apaguei e coloco agora em separado para poder me aprofundar: não é absolutamente chocante o fato de que a mídia que está sendo criticada por esses artigos é aquela voltada para o entretenimento? Refazendo a frase: o estupro se tornou um tipo de recurso narrativo em livros, séries e filmes voltados ao ENTRETENIMENTO? Dá para refazer a frase de outro jeito: ESTUPRO COMO ENTRETENIMENTO!

As justificativas: 1. essa é a realidade; 2. a série, filme, livro se passa numa época violenta, logo, isso ocorre; 3. feminista vê problema em tudo; 4. A arte imita a vida; etc. parecem bem ocas diante da pergunta: qual é o real sentido desse recurso numa obra de ficção? E como isso é realizado pelo autor, roteirista ou diretor?

Este artigo – http://www.vulture.com/2015/07/orange-is-the-new-black-is-the-only-tv-show-that-understands-rape.html?mid=facebook_thecutblog# – analisa amplamente alguns dos estupros que no último ano foram servidos como prato principal ou petisco para os espectadores. Na sequência, a autora, Jada Yuan, avança e propõe um tipo de teste Bechdel para os estupros em peças ficcionais. O blog Collant sem Decote traduziu o teste e colocou nesta ótima postagem: http://www.collantsemdecote.com/conheca-o-teste-jada-o-teste-bechdel-do-estupro.

O teste Jada consiste em fazer as seguintes perguntas ao assistir ou ler uma cena de estupro:

  1. O estupro ocorre pelo ponto de vista da vítima?
  2. A cena de estupro tem o propósito de desenvolvimento da personagem da vítima em vez da trama da narrativa?
  3. O abalo emocional da vítima é desenvolvido depois?

A Renata Alvetti, autora do artigo do Collant sem Decote, ainda adiciona uma pergunta:

  1. O corpo nu da vítima é mostrado durante a cena como objetivo de sexualização?

O teste é de grande valia se queremos desconstruir a cultura do estupro. Porém, como leitora e espectadora, acho que é possível ir além e questionar também o uso do estupro como recurso COMUM em peças de ENTRETENIMENTO.

Por outro lado, como escritora, acredito que a naturalização dos estupros na ficção precisa ser questionada como um todo. Um dos usos que mais me incomoda é o de estupros mostrados como ritos de passagem para personagens. Tipo: moça ingênua se torna bad ass após ter sido estuprada, ou se torna manipuladora, ou salvadora, etc. A leitura latente é: tal criatura nunca desenvolveria seu potencial sem um estupro. Horrível de ler dito assim, não é? Mas é o tipo de “moral” que acaba subjacente a vários tipos de narrativas ficcionais.

Além disso, e conversando com o meu comentário acima sobre as mídias, se estas compõem parte de nosso tecido educacional, não estariam os autores, com o uso do estupro como recurso narrativo, colocando apenas mais e mais pedras no edifício da cultura do estupro? Vou repetir: não estou defendendo o fim de referências a estupros em peças ficcionais! Estou questionando seu uso como recurso narrativo, muitas vezes de forma leviana (para dar uma virada na história), como fetiche (nenhum personagem goza, mas o autor, sim), como rito de passagem (uma personagem só ganha força suficiente após o trauma de um estupro) ou simplesmente por preguiça literária.

Em função disso, coloco mais duas perguntas ao teste Jada Yuan/Renata Alvetti:

  1. O autor só pode dizer/contar que quer usando o recurso narrativo do estupro? Nenhum outro tipo de narrativa pode substituir naquele dado ponto da história a violência sexual? Em resumo: o autor precisa mesmo desta passagem no texto?

Em respondendo sim a essa questão:

  1. Quão próximo o autor – ou autora – esteve de um abuso em si ou de alguém que ele conheça? Claro que um ficcionista pode criar, mas terrenos delicados exigem pesquisa e acho que este seria um que, se a opção fosse por um olhar aproximado, exigiria muita pesquisa. O intuito aqui é fugir ao máximo da leviandade.

Outro ponto que também é possível questionar: por que há tantos estupros na ficção e tão poucas “tentativas de estupro”? Aquelas em que a vítima se vira (sem o auxílio de um herói salvador) e dá um jeito de impedir o algoz (use todas as justificativas acima e a tentativa é tão válida como elemento de tensão quanto as “vias de fato”). Por que achamos normal ter isso em nosso ENTRETENIMENTO, mas ainda reagimos mal aos casos de amor que envolvem outros tipos de sexualidade que não a heteronormativa?

As respostas, é claro, estão nessa cultura na qual todxs estamos embebidos. Por isso mesmo a importância de se questionar, perguntar por que isso e não outra coisa? Naturalizar reforça os sentidos de opressão que a cultura do estupro dissemina. Nossa maior arma para acabar com tal cultura e ficar em pé e dizer: não, não é natural; não é o normal; ninguém precisa que isso lhe ocorra para que sua história fique mais interessante. Seja na realidade, seja na ficção.

 

* Embora não exclusivamente, pois se pode incluir crianças e até homens adultos em ambientes estritamente masculinos como prisões e exército.

 

Mais sobre o assunto:

https://ideiasemroxo.wordpress.com/2015/07/03/o-problema-do-estupro-na-ficcao/

http://fomedetudo.com.br/mulher/problematicas-cenas-de-estupro-na-ficcao/

http://blogueirasfeministas.com/2014/04/ha-uma-razao-para-haver-tantas-cenas-de-estupro-em-seus-programas-de-tv-favoritos/

http://tapiocamecanica.com.br/editorial-precisamos-falar-sobre-estupro-na-ficcao/

http://doutornerds.blogspot.com.br/2015/07/estupro-o-eterno-tabu-das-obras-de.html (O texto é legal, apesar de eu discordar do uso da palavra tabu, se fosse, o estupro na ficção não seria tão comum.)

Sobre espelhos

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Um continho que foi publicado há uns dois anos na Revista Fantástica.

 

Sobre espelhos

 

Foi assim: o menino entrou na sala de espelhos numa tarde branca de inverno. Perseguia uma bola multicor e os guardas o acharam tão gracioso que não puderam evitar um pouco de sorriso. A sala de espelhos é enorme, quase um salão, mas não tão grande, quase uma galeria, mas não tão comprida. É coberta de espelho em três paredes. Naquela em que é possível olhar para fora, para os jardins de noiva, há um espelho entre cada vão de janela. É uma sala linda de se ver, mas poucos gostam de entrar nela, menos ainda de entrar sozinhos. Só as crianças muito pequenas não têm essas inquietações. É sinal de estar crescendo recear ir à sala de espelhos e de amadurecimento esconder isso o quanto se puder de todos os outros.

 

Só quando a luz começou a diminuir – e o acendedor passou colocando fogo no óleo de baleia dos lampiões – foi que os guardas lembraram. Ninguém vira o menino voltar pela porta em que entrou. Não, com toda a certeza, o menino não saíra da sala de espelhos. Os guardas procuraram, por lá e por toda parte. Nada, nem de menino, nem de bola colorida. A brincadeira virou susto, que virou desespero e, depois, tristeza. Nunca mais se soube do menino. Um riso seu talvez tenha ficado dentro da sala. Sei de muitas pessoas que disseram ter ouvido o menino por lá. Alguém, numa festa, jurou ver o menino refletido, olhando os homens de peruca e as mulheres de saia quadrada com um riso nos lábios. Divertia-se o menino. O que era aquela criança no meio dos adultos, perguntou uma dama que ignorava o ocorrido. Mas não havia criança. Não na sala como ela julgara. Só nos espelhos.

 

Então, quando não era festa, já ninguém entrava na sala, fosse sozinho ou acompanhado. Até mesmo as multidões, que nunca admitiram o pânico que as festas entre os espelhos começavam a causar, resolveram que os jardins seriam melhores no verão e as salas com altos lambris de madeira muito mais quentes nas noites de inverno.

 

A sala de espelhos foi ficando sozinha. Há quem diga que foi o abandono que transformou o menino em peixe. Porque peixes de calda longa podem nadar sob a superfície dos espelhos d’água e o menino já não se satisfazia apenas com a sala de espelhos. Nem mesmo a revolução conseguira voltar a encher a sala, mas nesse dia foi que o peixe-menino fugiu. Há quem diga, que ele se grudou no espelho de uma espada e saiu para o mundo. Foi navegando de reflexo em reflexo, indo a todo lugar, ficando mais nuns que em outros. O melhor de tudo é que os peixes são muito mais difíceis de ver do que os meninos. O ruim é que alma de menino não pode virar peixe e disso se pode saber com certeza.

 

Até mesmo há quem diga que quando os espelhos bruxuleiam como a superfície dos lagos, fingindo que é a luz que falha sobre eles, é o peixe-menino vindo à tona em busca de um amigo. Sob a superfície é possível ver o olhar do menino-peixe, convidando para brincar.

Como funciona a cabeça de um escritor?

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A pergunta já me apareceu algumas vezes em entrevistas e a melhor resposta é essa.

Você ouve, vê, lê algo que te sugere uma ideia.

Você escreve. Esquece num caderno.

Relê. Acha uma bosta. Esquece.

Tempos depois reencontra. Relê. Gosta. Resolve que vale digitar.

Relê digitado. Acha uma bosta. Esquece.

Tempos depois vai verificar um título estranho no meio de uma pasta do Windows que guarda coisas que você escreveu.

Relê. Gosta. Resolve publicar.

Ajeita. Re trabalha, perde umas duas horas.

Relê. Acha uma bosta. Esquece de novo.

 

Sem açúcar, mas não sem amor

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No último ano aconteceu de novo. A combinação de estresse, atividades em excesso, muito trabalho e alimentação quando dá (cheia de compensações), resultou mais uma vez numa crise severa de hipoglicemia. A diferença entre as pequenas crises (que os hipoglicêmicos resolvem erradamente comendo um docinho) e as severas, é que, nas severas, comendo um docinho, você fica pior, muito pior. Eu sabia o que precisava. Cortar o doce drasticamente, já tinha acontecido, três meses e as coisas voltariam aos eixos.

Busquei um endócrino e uma nutricionista com quem tenho grande empatia. Do primeiro, depois da vista dos exames, saí com medicação para pré-diabetes: da outra vez que te aconteceu, você não tinha quarenta anos – me disse ele.

Já a minha amorosa nutricionista, entre dicas e ideias, foi suave ao dizer: creio que deves pensar que açúcar não é algo que te pertence mais.

Não farei uma longa postagem sobre os malefícios do açúcar e o fato de que, na verdade, não precisamos dele (a não ser como uma auto carícia). Isso é coisa para sites especializados em saúde e dá para ler aos montes por aí.

O grande problema é como o açúcar tem sido percebido. Açúcar é afeto, é amor, é carinho, é cuidado. Vai-se agradar uma criança, dá-se a ela um pirulito. Não sabe o que dar de presente a um adulto, leva-se um chocolate. Quer dar um mimo? Um bombom é ótimo para isso. Como assim, não vai repetir a sobremesa? Prova, prova!

Claro que é amor. O que mais seria? Ninguém presenteia ou acaricia com doces pensando que pode causar males graves, pelo contrário: é só por hoje, é só agora. Contudo, não é “só hoje”, uma exceção a regra, nunca é só por esse único momento em toda a sua vida.

Não há maldade no pensamento. Não é uma cultura maldosa. Mas pense: quantas vezes você presenteou com doces um amigx que deveria ficar longe deles? Quantas vezes, mesmo sabendo que o colega com diabetes se esforçou para resistir à torta servida na reunião você insistiu para que ele provasse? Está tão gostoso, só um pedacinho, vai. Um pedacinho não fará mal. Quem nunca fez isso? Eu já. Um monte de vezes

O problema é que faz mal. E nunca será só um pedacinho. Deixar de comer algo que toda a cultura te ensina ser uma tentação exige um bocado de disciplina. Contudo, não é um sacrifício como a maioria das pessoas imagina. Quando comentei minha nova condição, a frase que mais ouvi foi: ah, eu não conseguiria, eu morro se não comer doce, eu sou formiga, não consigo ficar sem chocolate, etc, etc.

Não, você não morreria, pelo contrário. Dá para ficar excepcionalmente bem. E não comer doces poder ser uma atitude nada exigente. Na verdade, é até bem simples. De um lado, basta lembrar o quanto a gente passa mal se comer. Em segundo, basta ter amigxs compreensivos que, simplesmente, não te oferecem e nem mesmo insistem para você comer mais (não só doces, mas todas as coisas, afinal todo carboidrato terá peso e não estou falando de balança).

Eu não sei porque (e posso estar errada) creio que as pessoas acham mais difícil compreender a abstenção se você não coloca uma alergia ou doença grave na frente, tipo diabetes, alergia à glúten (celíacos), alergia a laticínios ou ovo. Mas, também, as pessoas costumam implicar com determinadas decisões alimentares, como não comer carne ou qualquer produto animal. Parece que a alergia real é ao comportamento diferente e ao fato de que alguém que se alimenta de forma desigual da maioria, causa desconfortos na comensalidade. Mas aí, creio, tenho material para outra postagem.

Até lá, um pedido: me deem longos abraços ao invés de mimos açucarados. Presenteiem-me com vasos de temperos ao invés de caixas de chocolates. E me ofereçam frutas ou mais chá ao invés de um docinho ao final da refeição. Entenderei tudo isso como afeto, e sem açúcar.

 

Para adoçar, fica o Chico Buarque.

Dos usos das panelas

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Particularmente, o melhor uso que dou para minhas penelas é fazer comida. Gosto especialmente de enche-las bastante para receber amigos. Cheiro de tempero fresco, o povo na cozinha dando risadas, bebendo vinho ou cerveja de acordo com o clima, o gosto ou o espírito. A algazarra das crianças pulando na sala e vindo contar histórias.

Não me considero uma cozinheira particularmente habilidosa, muito embora possua um defeito gravíssimo: ADORO minha comida. Assim mesmo, com maiúsculas. E gosto, claro, de dividir isso. Porém, e tenho isso bem presente, cozinhar para os outros, num mundo tão gourmetizado, é um exercício de humildade. Comida de casa nem sempre dá certo. O que eu amo, pode não soar legal ao paladar de outra pessoa. Outras vezes, os insumos falham, não se apresentam com a perfeição de sabor que gostaríamos. Tipo a vez que eu fiz uma massa com molho de mostarda e cascas de laranja. Primeira tentativa: divina; na segunda… a massa não ajudou nada (eu não soube fazê-la direito) e ficou meio eca, mesmo que não ruim de todo.

Talvez, o erro tenha a sido a escolha do prato. As massas têm combinado com meu dia-a-dia corrido, acabo achando que os risotos combinam mais com as noites de amigos. Podem me chamar de bruxa (que eu gosto), mas eu amo mexer um caldeirão. Aliás, a não ser que eu peça, não precisam se oferecer para ocupar esse lugar. É muito gentil o “quer que eu mexa?”, mas sei lá, há coisas que somente o meu olhar e o meu olfato são capazes de captar no brilho, na textura e no cozimento do risoto. Sendo assim, agradeço de coração, mas prefiro que o ajudante leve pratos e copos para a mesa.

Nas últimas semanas tive a visita da Lis, uma amiga querida que chegou anunciando: vim provar tudo aquilo que tu diz que cozinha! Certo, então, botemos as panelas para trabalhar. Foram semanas de bolos (laranja com chocolate, cappuchino com raspas de limão), sopas (batatas com alho poró), um bom conjunto de massas, chili com feijão (ao que parece provoquei amor eterno com esse) e, de saideira, o risoto de morangos, cujo nome tanto espanto causa em quem nunca provou. Resolvi fazer o risoto para a Lis e a Bruna, que veio com o filho Pedro, de 1 ano e meio. A Daiane, minha terceira convidada, já tinha provado.

A receita é simples e me foi servida há muitos anos por uma amiga (Valeu, Bia!). Desde então, tenho feito e juntado a ela meus toques, meus gostos, de um jeito que hoje acredito que o resultado seja bastante meu. Para quem acha que os morangos deixam o prato doce, desculpe a confusão, mas ele não fica não. Morangos são tão ácidos e doces quanto tomates, logo se está apenas substituindo um pelo outro. Aliás, minha preferência são por morangos bem maduros, que desmancham fácil e deixam o prato menos azedinho no final.

Para os aventureiros de sabores e panelas, aqui vai a receita sem quantidades (pois elas vão variar com o número de amigos). Antes, porém, uma dica/pedido: use um caldo de legumes feito em casa para hidratar seu risoto, ok? Os caldos comprados, cheios de saborizantes artificiais vão comprometer o resultado com aquele final metálico e levemente viciado que os químicos deixam ao fim de cada garfada. Eu costumo fazer o meu assim: lavo bem os legumes antes de usá-los e guardo as cascas até ter uma boa quantidade. Batatas, cenouras, tomates (é fruta, mas ok), a parte entre o branco e o verde escuro do alho poró, a ponta das cebolas, etc. Fervo tudo, coloco umas ervas que tenha à mão e, depois de frio, liquidifico, distribuo em forminhas de gelo ou potinhos pequenos, congelo. Voilá!

Tendo o caldo, basta derreter uma poção concentrada em mais água, aí é começar o risoto com a base comum: azeite, cebola, alho (uma pitadinha de açúcar ou a cabeça de dois cravos da índia, só a cabeça), folhas de tomilho fresco (o seco deixa um gosto terroso, não use), depois bacon (sorry, não elaborei ainda nenhuma alternativa vegetariana e sei que o leitor carnívoro está pensando: “bacon! porque ela não disse isso logo?”). Quando estiver douradinho, o arroz (eu gosto de usar o arbório ou o agulhão), uma fritada e segue uma medida de vinho tinto (sim, para esse prato fica melhor o tinto que o branco, já testei). Assim que o vinho evaporar, comece a hidratar o risoto colocando conchas do caldo de legumes, umas duas por vez, mexendo sempre enquanto conversa e ouve as piadas dos amigos. Lá pela metade, você incorpora os morangos já lavados e picados em rodelinhas (não precisa ser cubinho, pois eles desmancham fácil). Tempere com pimenta do reino moída na hora (com 5 Bayas também fica ótimo), teste o sal, experimente o arroz e não o deixe ficar recosido para poder sentir bem a textura gomosa. Coloque uma boa quantidade de parmesão ralado.

O prato fica violáceo, belíssimo. Eu gosto de servi-lo com ramos de tomilho fresco para serem incorporados pelo próprio convidado na quantidade que quiser. É difícil que alguém não se renda a usar esse temperinho na hora de comer. Para acompanhar, salada verde com compota de pimentões (esses sim, levemente adocicados).

Eu podia ficar me gabando do resultado, mas não vou. Como disse acima, adoro minha comida mesmo quando os convidados não apreciam tanto. No entanto, quando uma criança de 1 ano e meio brilha os olhos depois da primeira prova e passa a reclamar se a garfada vai pra mãe e não pra ela… Bem, acho que aí posso me gabar sim. Nunca recebi um elogio tão sincero em toda minha vida de cozinheira. Valeu, Pedrão! As panelas daqui de casa estarão sempre à postos para te esperar.

 

 

 

 

Nasceu assim

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Todos concordam: criar filhos não é fácil. Há os que acham que a natureza é sábia e guia. Os que defendem que não se pode isolar as crianças das influências do mundo. Os que se angustiam se estão fazendo tudo certo, os que sabem que estão errando em algum lugar. Há os que buscam ajuda e os que não ouvem nenhum tipo de conselho. os que dizem que não há manual de instrução, os que dizem que existem vários, mas é preciso lê-los.

Em qualquer das variantes, pais e principalmente as mães serão criticados. Afinal, seus filhos nada sabem do mundo, logo, dita a lógica é você que está errado. E como os pontos de vista são poliédricos, em algum sentido, com certeza, você, pai ou mãe, vai estar errado.

Eu já fui chamada de mãe má por chamar atenção de meu filho com menos de um ano. O que ele vai entender? Mãe má por não permitir doces antes dos dois anos. Pobrezinho. Mãe má por não colocar chocolate no leite. Coitado, não vai saber o que é bom. Mãe má por limitar os presentes que poderia receber de avós e tios. É só uma porcariazinha, que mal tem? 

Não raro ouço elogios ao comportamento do meu menino. Como ele é bonzinho! Como é fácil de lidar com ele, não? Que índole boa que ele tem.

A mãe aqui fica entre o discurso explicativo e a ironia. Tem dias que ganha a ironia: Pois é, ele nasceu assim. 

 

Front russo

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Tenho batalhado em tantas frentes que estou certa de que estou causando uma falsa impressão. Há poucos dias, uma amiga querida evidenciou isso em uma pergunta: e tu conseguirias ficar bem se não fosse assim?

Não sei como exatamente ela tomou a minha resposta, mas a pergunta me soou absurda. Então, dou a impressão que aprecio o turbilhão? Que não poderia ser de outra maneira? Nem eu, nem a vida que levo? Que engano! Que engano!

Veja bem, não sou infeliz, tampouco triste, mas meus pesadelos são feitos de ondas gigantescas que se erguem avançando sobre o continentes e arrastando tudo quanto estiver em seu caminho. E eu preciso correr delas. Ou então, são tornados, em quantidade assustadora que avançam sobre a vista da minha janela.

Não, querida amiga, é uma impressão errada a que passo. Não amo minhas frentes de batalhas, apenas faço o possível entre o ganha pão e o que me faz inteira e sorridente. Eu danço nas pontas dos dedos dos pés entre o que sou e o que tenho de fazer. Eu reluto entre as guerras para quais sou chamada e as que não consigo abandonar. Seria mais simples, muito mais simples, se eu abandonasse essas últimas, essas que nada me dão além de satisfação (sei que reconheces minha ironia, amiga).

Por vezes, quando escrevo aqueles resumos de currículo que volta e meia me pedem, fico contemplando a quantidade de atividades que posso colocar depois do meu nome e isso me apavora. Então, percebo que não há nada de raro na minha condição, que tantos e tantas outras pessoas são assim. Dou-se conta que, talvez, por mais que eu quisesse, não poderia ser diferente. Eu não conseguiria ser diferente, ser centrada, única, sem pedaços partidos de mim, caminhando por um único caminho.

Fico pensando se isso sou eu ou é o tudo que me envolve. Uma condição humana? Talvez sim, talvez não. Não conheço tantos humanos assim a ponto de formular estatísticas.  Talvez, seja apenas esse nosso ponto no tempo. Esse momento histórico em que o mundo social se fragmenta e nós vamos nos fragmentando com ele. Fazendo-nos em pedaços e sonhando em uni-los antes que tsunamis e tornados nos arrebentem.

Eu poderia terminar escrevendo o que disse à minha amiga: não é uma questão de gosto, mas de necessidade. Então, argumento comigo mesma: se fosse insuportável, eu diria não a algumas dessas necessidades? Teria tanta coragem assim? Ou assumo todas essas frentes de batalha porque sei que posso lidar com elas? E, nesse caso, não posso negar que há um pouco de gosto sim.